O reencontro de pessoas mortas via realidade virtual é prejudicial para o processo de luto

Relembre também um caso gamer que comoveu a internet a ponto de virar filme

ExperiÊncia coreana VR
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Um vídeo gravado na Coréia mostra uma experiência de realidade virtual onde uma mãe viu sua filha que morreu em 2016. No vídeo, é possível ver a mãe, a equipe que realizou a gravação e também a plateia chorando. Embora tenha despertado grandes emoções, o que essa mulher viveu foi algo cruel e prejudicial para o seu processo de luto. Acompanhe abaixo:

O virtual machuca

A realidade virtual é somente virtual: não se trata de algo real, vivo, de algo capaz de satisfazer as necessidades humanas – ao contrário, essa ação prejudica o processo de luto. Pode parecer que em um primeiro momento a experiência virtual de reviver um ente morto seja benéfica, todavia em seguida, perceber que aquilo não é verdadeiro, não é algo real, cria uma expectativa e aumenta a pendência, que é semântico à ansiedade e suas consequências.

No processo de luto, a dor vivida desencadeia emoções terríveis no indivíduo. Nós, humanos, nem sempre conseguimos lidar com as nossas emoções. Por isso pessoas buscam terapias, pois o cérebro pode moldar se de acordo com a tristeza, trazendo consequências como doenças ou transtornos mentais. Todavia, embora a realidade virtual promova uma emoção momentânea, a longo prazo práticas como essa prejudicam o processo de superação do luto. No final, a dor não é amenizada, mas sim ampliada.

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“Eu sinto tanto a sua falta…” disse a mãe. Experimento foi muito questionado.

Criar uma simulação computadorizada de um ser humano que morreu é uma tentativa de fuga da realidade que prejudica o processo de luto. O melhor remédio para o luto, são as boas memórias formatadas. É a superação mediante a adversidade. A consciência de que deve-se girar a chave e formatar uma vida sem a pessoa e, esta, tem sua importância na lembrança que impulsiona para a tomada de decisões.

Ao invés de promover um processo de cura, onde a dor pode ser superada, a realidade virtual só pode apenas tentar disfarçar a dor e aprisionar o indivíduo nela. Quando a pessoa está presa em sua dor, ela não possui a liberdade de moldar o seu cérebro em prol da adaptação e consequentemente da superação de sua perda.

Houve algo parecido nos games?

Embora as tecnologias de realidade virtual tenham nos games um grande terreno para praticar situações como esta acima, por enquanto nada ainda foi testado com estas intenções, o que não quer dizer que o assunto não tenha uma história de ‘reencontro’ com pessoas que partiram.

Uma dessas provas que talvez seja um dos casos mais emocionantes envolvendo os temas de games e luto é o caso que viralizou na internet por volta de 2014. Na época, um jovem com o perfil “00WARTHERAPY00” deixou um comentário no Youtube que atraiu a atenção de todos que puderam acessar aquele vídeo, que tinha justamente um questionamento envolvendo games e questões de ordem espiritual.

Entre um comentário e outro o jovem fez o seguinte relato: Quando ele tinha 4 anos, s eu pai lhe deu um Xbox, e ambos jogaram muitos games juntos, até que o pai veio a falecer de câncer apenas dois anos depois. O trauma fez com que o garoto nunca mais quisesse jogar videogame, e isto durou 10 anos.

Certa vez, remexendo em suas coisas guardadas, o garoto se deparou com o console antigo. E ao olhar para o objeto, resolveu testar o aparelho. Vendo que tudo ainda funcionava, ele escolheu um jogo chamado Rally Sports Challenge, e foi justamente nesse jogo que ele confessa ter visto o fantasma do pai.

Isto porque o game de corrida tinha um modo de disputa onde a volta mais rápida deixava nas rodadas seguintes um rastro, que poderia ser perseguido para bater o recorde cravado. E o recorde cravado era o do pai do garoto. Surpreso e emocionado com o carro fantasma, o garoto resolveu voltar a jogar esse que era um dos jogos favoritos do seu pai.

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Exemplo do carro fantasma no game Rally Sports Challenge. (Imagem: Reprodução)

O internauta confessou que jogou muito para tentar superar a corrida perfeita do pai, até que um dia ele conseguiu e terminou a frase com o seguinte relato: “Eu joguei, joguei, joguei, joguei e até que um dia eu consegui, mas parei bem na linha de chegada, só para que corrida dele não pudesse ser apagada.”. A história mexeu tanto com a comunidade que rendeu um curta metragem com o título de “Player Two”. Confira abaixo:

Em suma, o fato é que o luto é um processo que envolve questões complexas que demandam um tempo que é de cada um, e tumultuar esta evolução pode ter sérias consequências.

Sobre o Dr. Fabiano de Abreu

O Prof. Dr. Fabiano de Abreu é colunista do Observatório de Games, PostDoc e PhD em neurociência, mestre psicanalista, doutor e mestre em Ciências da Saúde nas áreas de Psicologia e Neurociências, com graduações em psicologia, neuropsicologia, história, antropologia e biologia. Especialização em Propriedade Elétricas dos Neurônios, Inteligência Artificial, Python, Hardware com registro IPI Intel e expert em montagem de computadores. Considerado um dos maiores QIs da atualidade e membro da Mensa, associação de pessoas de alto QI.

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