Uma Reflexão para os Devs Nacionais

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Alerta

Isto não é um artigo, é um desabafo, uma reflexão, uma “pistolada”, vindo de um dev velho e que não acredita que apesar de todo estes anos na estrada, ainda vê com assombro, a infantilidade e a falta de profissionalismo de alguns desenvolvedores de jogos no Brasil.

Introdução

Dia 29 de agosto ficou estabelecido que seria o dia internacional do gamer. A data foi inaugurada em 2008 pelas revistas espanholas PlayManía, Hobby Consolas e PC Manía. Revistas especializadas que iniciaram o movimento, tornando a data realidade para todo os gamers.

Hoje trabalhar com jogos deixou de ser uma brincadeira e virou uma indústria de bilhões de dólares, possibilitando as empresas a atuarem no mercado e oferecerem soluções dentro da área. Isso abre toda uma série de oportunidades enormes para os jovens que querem entrar neste mercado.

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No Brasil temos uma indústria de jogos ainda engatinhando, apesar de termos diversos sucessos de estúdios nacionais no mercado gringo, mas nada comparado ao mercado internacional que movimenta bilhões. Contudo temos que pontuar que estes sucessos nacionais isolados são fruto de uma mentalidade bem diferente da maioria dos devs nacionais.

Este artigo/desabafo/rant vai tentar falar disso.

Parafraseando Galileu da Galileia:  “Vamos cair de cabeça nisso”.

Ensaio Sobre a Cegueira

Não é a obra prima de Saramago, mas uma reflexão triste de como muitos estúdios emergentes nacionais, bem como desenvolvedores que querem viver de fazer jogo, ainda guardam dentro de si. (note bem, não estou falando dos devs que fazem por paixão em suas horas livres e que tem um emprego que pagam seus boletos, isso é outra coisa.)

Eu conversei recentemente com algumas startups de games (que já estão há algum tempo na estrada ) e a falta de uma visão de negócio, misturado com um pensamento no mínimo irreal do mercado, realmente me tirou do sério. Muitos estão presos na mesma ideia há anos e de lá não conseguem sair.

Parece um buraco sem fundo que traga estas empresas e as transformam em eternas dependentes de editais e de programas de fomento do governo, sem conseguir emplacar. Não possuem um modelo de negócio sustentável e parecem não ter futuro.

O mais curioso é que se você sugere em diversificar o negócio, os seus membros se sentem ofendidos e acham que não é o caminho correto e vai atrapalhar o desenvolvimento de seu projeto. Fazer um jogo educacional? Nem pensar! Uma gamificação para um cliente grande? Nós não trabalhamos com isso! Fazer um outsorucing pra gringa? Não me interessa.

Isso atrasa o nosso projeto!

Eu não ouvi isso só de uma startup, mas de duas ou três, e de desenvolvedores que estão há alguns anos na estrada! Como é que podemos criar uma indústria nacional de jogos, um ecossistema forte que promova oportunidades de emprego, investimento e mudança social, com este tipo de pensamento?

Será que o desenvolvedor nacional pensa que vai ficar anos desenvolvendo um mesmo jogo e que vai ser um sucesso global? Uma espécie de presente por seu sacrifício?

Só pode ser piada.

Contudo eu digo que a culpa deste pensamento tem um nome: Indie Game the Movie.

Esta produção canadense conta a história de 3 devs indies que “venceram” por sua persistência e finalmente conseguiram o sucesso desejado. Mas o curioso é que estes caras são pontos fora da curva, já que muitos outros que estão aí, nunca conseguiram este almejado sucesso.

Indie Game: The Movie Trailer - WATCH NOW at ...

Este filme parece que causou uma comoção na comunidade indie dev do nosso país e este espírito romântico ficou na cabeça de muitos já há muitos anos. Podem dizer que eu estou exagerando, mas quando eu converso com muitos devs nacionais eu vejo isso claramente.

A mentalidade que passa é: vou me dedicar anos ao “MEU JOGO” e vou ser premiado no final. Eu boto as duas mãos na minha cabeça e não acredito na tamanha irrealidade desta maneira de agir e pensar. Isto leva a um segundo ponto neste meu desabafo.

Nenhum investidor quer colocar dinheiro no meu projeto.

Ouço sempre esta mesma frase destes devs. Aí entra o segundo ponto neste meu desabafo.

Onde está o dinheiro para os Games?

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A principal maneira de algum investidor colocar dinheiro em games é verificar se o negócio que ele está botando a grana dele é sustentável. Como assim? A regra é clara e ele vai te perguntar o seguinte:

  • Qual é a sua experiência nisso ?
  • Quero ver seu plano de negócio.
  • Em quanto tempo vou ter retorno do que eu investi ?
  • Quais as garantias deste retorno ?
  • Qual é a escalabilidade de seu projeto

Se você gaguejar ou não souber responder alguma das perguntas acima, esqueça nem perca seu tempo em tentar falar com um cara desses. O problema é que quando iniciamos um negócio, ligado a jogos temos que saber enxergar oportunidades.

A pergunta que eu faço é a seguinte: você enxerga o que está fazendo como um negócio?

Novamente eu entendo se você tem um emprego que paga suas contas e faz seu jogo como uma paixão. Ponto. Estou feliz, e sei o que você quer. Mas se você quer trabalhar na indústria de jogos, mude seu pensamento para fazer negócios e enxergar oportunidades.

Eu tenho a maior vontade de fazer meu jogo autoral, mas eu sei que preciso pagar as contas final do mês. Por isso vou usar todo o meu conhecimento com os jogos enxergando oportunidades no mercado, atuando em áreas ligadas a indústria.

Isso não é errado, é simplesmente o óbvio, pois se você se trancar num pensamento pequeno e não olhar que o mundo vai além do vale, me desculpa mas você está na profissão errada. O investidor que ver se você tenha responsabilidade com a grana dele e sentir confiança.

Aí vem mais um ponto bem interessante: falhar miseravelmente

“Desconfie de quem jamais quebrou”

Foto profissional grátis de abrace a mudança, abstrato, adaptar ou falhar

Esta frase não é minha, mas de um conhecido que gere fundos de investimento e aponta para os caras com grana investirem pesado em projetos e ideias. Ele me disse o seguinte:

” Se eu converso com um proponente e ele me fala que jamais quebrou, eu vou ficar muito desconfiado e preocupado. Já que aquele outro que já quebrou, falhou miseravelmente, sabe quando isto é caro e como dá experiência. As cicatrizes e os ensinamentos valem nesta história.”

Ou seja, falhar e aprender com seus fracassos, contam e servem para que você comece a pensar e descobrir o que fez de errado para chegar a este ponto. As cicatrizes de batalha por ter quebrado e as vezes, ter perdido tudo, te dá uma visão diferente de mundo.

Eu já quebrei três vezes, sendo que a terceira vez foi épica (hoje eu rio disso). Eu perdi tudo, tudo mesmo. Quando eu consegui (anos depois) me reposicionar em relação ao mercado e aos meus projetos, eu estava muito mudado e mais realista. . Aprendi como é caro e que a quebra é um processo muito doloroso.

Por isso as vezes o remédio é muito amargo, mas você aprende lições muito valiosas (o preço é BEM alto) e que te moldam para os desafios futuros, mostrando caminhos alternativos. Quando você chegar junto a um investidor vai se sentir mais confiante e seguro do que quer.

E ele vai te olhar com outros olhos.

Um outro ponto é o sacrifício: a que ponto você está pronto para largar tudo e se dedicar ao seu negócio? Não é ficar somente trancado num quarto desenvolvendo seu jogo, mas sim manter a empresa funcionando, executando outros serviços, atuando no mercado, fazendo networking, se especializando.

A grana existe, mas os caras não sentem firmeza em investir o dinheiro deles em alguém que não passa confiança, compromisso e autoridade no que está fazendo.

O que eu faço então?

A primeira coisa se você não sabe como fazer isso eu te recomendo a fazer é uma imersão em aprender um pouco sobre negócios. Entrar num programa de incubação e aceleração de alguma aceleradora de startups é um excelente começo. Tem programas gratuitos e abrindo toda a hora, basta usar o Google.

Você ainda pode investir em cursos de empreendedorismo online pagos e gratuitos oferecido por diversas empresas e órgãos do governo, basta também pesquisar no Google. Este tipo de mudança de pensamento vai te fazer entender como você pode ampliar sua visão de negócios em games.

Quanto aos editais governamentais eles podem ser utilizados como um ponto de partida de seu negócio, mas com o objetivo de torná-lo sustentável. Se um edital estiver associado a um programa de aceleração de startups é o melhor dos mundos.

AGORA NÃO VIVA DE EDITAIS, ESTA É UMA DAS DOENÇAS DOS DEVS NACIONAIS!

Precisamos urgentemente mudar este pensamento tacanho e atrasado que permeia ainda a cabeça de muitos desenvolvedores. Se começarmos a tratar o desenvolvimento em negócios em games como algo sério e sustentável, enxergando oportunidades, a indústria nacional irá alavancar.

Sem isso teremos sempre um discurso vazio e sem base, que afastará cada vez mais o investimento nos negócios dos games em nosso país. Fica aqui minha reflexão para você que quer ter seu negócio em games.

Até nosso próximo artigo!

Tony Garcia é Game Designer, Educador, Gamification Designer, Especialista em Manufatura Aditiva e em Tecnologias Educacionais.
Tem mais de 80 jogos desenvolvidos e trabalhou com mentoria em mais de 30 startups de jogos. Atuou em projetos de jogos educacionais e gamificação. Atualmente é diretor de projetos da Riogamer, Associação de GAmes e E-Sportss do Rio de Janeiro.

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