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Quantos pulos você precisa dar até tornar um profissional de games?

Já faz algum tempo que os brasileiros sentiram que poderiam fazer mais do que brincar com jogos eletrônicos. Os garotos que alugavam cartuchos na locadora aos finais de semana cresceram, e com eles, o mercado brazilis também. Contudo, viver de games, em qualquer uma das áreas em que isso seja possível, ainda parece ser um desafio cheio de lendas urbanas.

E são justamente essas lendas urbanas criadas em torno das dificuldades já existentes que muita coisa fica distorcida, superdimensionada, ou mesmo totalmente errada. E é justamente todo esse desencontro de informações que deixa nublado o custo de qualquer missão.

Entretanto, a verdade nesse caminho existe e foi tema do papo de mercado promovido pelo Observatório de Games e a Escola Rivers de Games e Design na última semana. Através de uma live, o encontro contou com a presença de profissionais da área gamer, que procuraram orientar quanto custa, de fato, ser um profissional de games no brasil atualmente. Confira os principais pontos do encontro:

1 – Com o caminho ‘tradicional’, mais de 50 mil reais

Partindo do velho pré-suposto de que quem quiser ser um profissional tem que ter um diploma universitário, a conta é gelada. 4 anos de qualquer curso não costumam deixar menos de R$800 reais no mês (sem contar os extras como transporte, alimentação e material complementar).

Thomas Leme, game designer há 12 anos, fundador da Overtime Studios e com games como Magic Puzzle Quest no currículo, passou por esse caminho e reforça o que quem ainda não fez faculdade já imagina: o nível é hard.

Membro de uma das primeiras turmas do curso de Games do Brasil pela Universidade Anhembi Morumbi, Thomas aprendeu os primeiros conceitos de game design durante essa oportunidade. Contudo, o custo acabou sendo um dos maiores obstáculos.

A imagem pode conter: Thomas Leme, em pé
O professor Thomas Leme. Imagem: Reprodução Facebook.

Na época, o curso custava em torno de R$1200, o que numa soma rápida joga isso põe um custo na especialização de R$57.600, que conforme dito acima, passam facilmente de R$60 mil quando somados aos outros custos fixos. Thomas ainda pagou muito mais do que isso, já que, diante de uma situação financeira complicada, recorreu ao crédito estudantil, o que posteriormente acabou saindo muito mais caro.

2 – Com curso técnico, bem menos que a faculdade

Rafael Lima, artista 3D, programador e game designer, também fez faculdade, mas pontuou algo que é fundamental para os aspirantes a área saberem: faculdade não é tudo. Aliás, dependendo da empresa para qual você envie o currículo, isso é quase nada.

Às vezes você nem é formado em games e vai trabalhar com games. A gente [o mercado] não liga para currículo, a real é essa.” diz Rafael, que ressalta ainda que o que importa mesmo é constatar se o candidato domina o que diz dominar.

Rafael conclui o raciocínio pontuando que o curso acabou sendo conveniente para que ele pudesse dar aulas em faculdade, dentre outros benefícios. Em contrapartida, o profissional também avalia que o dinheiro investido também poderia ter sido direcionado para cursos técnicos específicos, que lhe teriam deixado muito mais evoluído em vários quesitos do que os que possui atualmente.

3 – Com o que você já tem de talento, R$0 reais

Marx Walker, jornalista gamer e ex-funcionário da Div. PlayStation Japan, também concluiu sua faculdade, mas lembra que o mercado está mais conectado do que nunca, e isso é vantajoso de inúmeras maneiras, inclusive para quem não tem uma faculdade ou ainda não pôde fazer cursos profissionalizantes.

Se você é músico, por exemplo, pode perfeitamente oferecer seus trabalhos autorais para esse mercado, ou até mesmo criando obras novas para um projeto de jogo em desenvolvimento” diz Marx, alertando para o custo praticamente nulo disso.

E embora você, músico nesse caso, possa ter tido algum custo com seu aprendizado, não dá pra dizer que isso foi feito para usar na área gamer. Logo, saiu por zero reais ter essa chance de trabalhar nesse mercado.” avalia Walker, que ainda lembra que os tempos atuais são mais do que oportunos para quem quiser trabalhar com games.

Veja, se você for apenas alguém que joga e tem uma boa desenvoltura em lives ao interagir com internautas durante sua jogatina, também existe uma boa chance de você conseguir algum sustendo profissional com essa prática, através de parcerias com lojas, doações e outros tipos de patrocínio.” Conclui.

4 – Com o tempo que você NÃO tem, pode custar sua vida, literalmente

O último tópico relativo a custos para se viver de games é também um alerta para que não se morra tentando virar um. Daniel Rivers, que atuou nos efeitos especiais do seriado Black Mirror e hoje é professor e fundador da Escola Rivers de Games e Design, lembrou no começo da conversa o problema de saúde enfrentado por Thomas, que foi seu colega de classe.

Daniel Rivers durante entrevista ao Observatório de Games.
Daniel Rivers, que atuou nos efeitos especiais do episódio ‘Striking Vipers‘ da 5ª temporada do seriado Black Mirror. Imagem: Observatório de Games.

Depois de três semanas praticamente sem dormir, tentando conciliar o intenso trabalho com games e faculdade, Thomas simplesmente enfartou, aos 21 anos de idade. O episódio, pontuado na live do encontro anterior, sobre as decepções de se trabalhar com games, também foi colocado nessa oportunidade como alerta. O tempo é o que há de mais valiosos para ser entregue, e é preciso fazer isso com muita reflexão, coerência e responsabilidade.

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