Compositor de Silent Hill 2 fala sobre o “Ma”, uma das coisas mais estranhas que usou na trilha do game

Qual o som que instintivamente desperta o medo em muitos de nós?

Publicado em 1/6/2021
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Silent Hil 2 é indiscutivelmente um marco nas história dos games de terror. Prestes a completar 20 anos em 2021, o jogo que eternizou Pyramid Head e ensinou a perturbar pessoas neste gênero é um trabalho rico em elementos que deixaram que transformaram essa experiência num clássico a ser seguido e referenciado.

E um dos temperos que certamente contribui muito para os calafrios do game é o som. A missão a cargo do japonês Akira Yamaoka, que atuou como designer de som, é cheia de histórias curiosas sobre a composição de Silent Hill 2. Durante uma entrevista ao Retro Gamer Magazine, Akira comentou sobre o processo de criação para colocar na tela sensações auditivas que complementassem a tensão vivida na tela.

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Foram usados sons de quadro negro sendo arranhado, ferragens retorcendo, som de obras, serra-elétrica e uma infinidade de barulhos que tornaram a experiência do jogo algo realmente perturbador em qualquer que fosse a situação, tendo ela um monstro ou não.

❝ Usei certos sons dos quais não gostamos instintivamente, sem qualquer razão ou explicação lógica, como o som de arranhar de um quadro-negro, o som de perfuração de canteiros de obras e o som de frenagem de bicicletas. Combinei-os para criar esses sons perturbadores sons enigmáticos.❞

Akira Yamaoka

Até aqui a fala impressiona, mas nada que seja muito diferente dos esforços que já se viu para fazer um filme da Disney por exemplo. No entanto, é aqui que entra um conceito japonês chamado ‘Ma/間’.

‘Espaço entre duas coisas’

De acordo com o dicionário de japonês Michaelis, desenvolvido em parceria com a Aliança Cultural Brasil Japão, “間 (lê-se “Ma” ou ainda “aida) é um espaço existente entre duas coisas” ou ainda o conceito de espaço, intervalo, pausa, tempo. Na língua do designer Akira, Ma é um conceito espacial utilizado Este conceito espacial é aplicado em todas as manifestações artísticas, que vai da literatura, passando pelas artes marciais e chegando até a música.

Em outras palavras, o Ma é uma atenção especial dedicada para o espaço entre elementos teoricamente mais chamativos, como isto aqui abaixo:

Se você viu dois rostos na figura à esquerda, ou um macaco, um tigre e peixes na da direita, você viu um exemplo de como o Ma é trabalhado.

Trazendo esse conceito nos games, o Ma é trabalhado justamente no contrapé dos nossos instintos ali. Isso significa dizer que todos os sons de Silent Hill 2, por mais imperceptíveis que sejam, tiveram uma preocupação de pegar o jogador no vácuo de suas certezas. E o resultado disso é muitas vezes um desconforto que você não sabe de onde vem.

❝ A maior parte da cultura japonesa vista no exterior, como Kimono, Ukiyoe ou Zen, é criada pelo senso de ‘ma’ que aprendemos naturalmente, nascendo e sendo criados nesta cultura sem sequer pensar conscientemente sobre isso. Eu criei essa trilha sonora enquanto tendo em mente a criação de originalidade, utilizando este sentido sutil de ‘ma’ na música.❞

Akira Yamaoka

Frequência do medo

Para estudiosos como Akira, as sensações de medo e relaxamento possuem mais coincidências do que nós, que não estudamos sobre isso, possamos perceber. “O comprimento de onda de ter medo, quando você está assistindo a um filme de terror, andando em uma montanha-russa ou caminhando em uma casa mal-assombrada, é na verdade o mesmo comprimento de onda que você tem quando está relaxado. As pessoas realmente sabem que experiência assustadora não é igual a um perigo para o corpo. Claro, isso exclui acidentes reais ou ser realmente atingido.” diz o designer.

“Basicamente, o medo é recebido pelo corpo e o cérebro realmente sabe que eles não estão em perigo. Você pode dizer que as pessoas sabem que está tudo bem porque é ficcional. Acredito que a música que induz esse estado de ‘medo = relaxe’, e combinado com os mencionados ‘sons instintivamente perturbadores’ cria aquela sensação estranha e inquietante.” pontua Akira.

Uma experiência que pode ser sentida dentro disso que foi dito acima é se expor a uma das faixas criadas pelo japonês para Silent Hill 2. Perceba que conforme o tempo passa, a vontade de silenciar aquilo ali é crescente.

Já percebeu que alguns filmes de terror tem a opção de diminuir a trilha de fundo ou seus efeitos? Pois é , tudo para o caso de você não aguentar o tranco.

Demônio? também pode ser

Um ponto curioso que pertinentemente se soma a isso tudo em Silent Hill são os outros significados que a palavra ‘Ma’ pode ter para os japoneses. Dependendo do ideograma, isso pode significar “Verdade (真)” ou ainda “demônio / má influência/ espírito mal (魔). Coisas da língua japonesa, que neste caso, caem como uma luva (ou um corpo) para Silent Hill.

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