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Brasileiro conta como foi trabalhar no game Fallout: London

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Texto enviado pelo brasileiro Michel Lichand, que relatou com exclusividade ao Observatório de Games a sua experiência de colaboração ao game Fallout: London.

Experiencia anterior

Antes de ser aceito para o time do Fallout: London, eu tive uma breve experiência com roteiro para games. Trabalhei com a Lionsgate Games, que cuida de qualquer experiência interativa envolvendo franquias da Lionsgate (Jogos Vorazes, Jogos Mortais, John Wick, etc).

Vi muita coisa interessante lá que ainda não posso divulgar, mas também tive a oportunidade de trabalhar um pouco no Evil Dead: The Game. E a coisa mais fascinante sobre roteiro para games é o quanto você tem que trabalhar dentro dos limites.

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Pro Evil Dead, você só podia escrever algumas reações, alg

umas falas super pequenas, e só. Não tinha cena de diálogo. Esse tipo de limite pode causar um pouco de desespero, mas pra mim a graça foi descobrir jeitos de colocar o espíritos dos filmes Evil Dead dentro dessas poucas linhas.

Entrando no time

Em 2021, eu descobri o projeto Fallout: London. Pra quem não conhece, é um jogo que se passa em um lado nunca explorado do universo Fallout- o resto do mundo. A gente sabe exatamente como é que funciona os Estados Unidos pós-apocalíptico, mas não a Inglaterra, a França, etc.

Michel Lichand durante sua experiência no game. (Imagem: Acervo pessoal)

E a ideia do jogo é exatamente contar uma história que se passa na Inglaterra pós-apocalíptica. Pra mim é uma ideia genial, não só porque eu adoro o universo Fallout mas porque eu também sou fascinado com a cultura britânica e a história da Inglaterra (aprendi inglês vendo Monty Python e sou um mega fã de Doctor Who).

Me inscrevi e eles logo me botaram pra escrever algumas missões e NPCs que você encontra no jogo. Foi meio que uma surpresa, porque eu escrevi muito pouco para jogos “profissionais”, mas pro jogo “fa” eu escrevi mais de centenas de linhas de diálogo. E eles acabaram se surpreendendo o quanto este brasileiro sabia sobre o universo britânico.

Influências brasileiras

A liderança do time do Fallout London é britânica, mas tem gente de todos os países no time. E a coisa mais fascinante pra mim foi o fato de que o humor brasileiro acaba tendo mais a ver com o humor britânico do que o americano.

Eu já escrevi para shows de esquete americanos, e é impossível fazer um americano rir com o bordão, o personagem caricaturado brasileiro, mas o pessoal da Inglaterra tá muito mais acostumado com isso. Inclusive eu descobri que o nosso sitcom tem mais a ver com o sitcom deles do que o americano (inclusive, eu acho até meio ridículo o pessoal que fala que o nosso humor é de baixo escalão mas o deles é super avançado, os nossos dois países acabam rindo da mesma coisa).

Quem diria que Caco Antibes iria virar referência para um jogo. Isso rendeu um outro artigo que você confere logo mais por aqui.

Eles me deram a honra de escrever um dos NPCs que acompanham o jogador, e pra mim esse personagem acabou sendo meio Graham Chapman e meio Miguel Falabella. E apesar do universo Fallout ser um mundo meio tragicômico, é óbvio que nenhum personagem do Fallout: London vai virar pra câmera e soltar um bordão como se estivesse na Escolinha do Professor Raimundo. Mesmo assim, eu me surpreendi o quão pouco eu tive que me adaptar pro estilo britânico de comédia.

Maior desafio

O fator ‘X’ do Fallout London é que eles querem fazer algo no nível de uma DLC da Bethesda, então eles encheram o jogo de conteúdo. Eu sozinho escrevi um monte de missões secundárias. Foi um processo puxado mas muito gratificante.

Quando você está escrevendo cinquenta personagens, diferenciar cada um deles fica mais e mais difícil. A pior parte foi escrever cada reação que o personagem pode ter a alguma coisa que o jogador faz. Tem reação pra quando o jogador tentar roubar algo na frente do personagem, pra quando o jogador tenta atacar o personagem com uma faca, pra quando o jogador cai de uma grande altura… tudo que existe dentro de um jogo precisa ser escrito, então a próxima vez que você estiver pulando por aí em Skyrim, pense no pobre roteirista que teve que escrever cada grunhido.

Parte mais interessante do jogo

O time do Fallout London é todo feito por fãs e voluntários, mas eles realmente querem fazer algo que esteja no mesmo nível que um jogo profissional (inclusive não é coincidência que alguns membros do time já foram contratados para trabalharem em grandes empresas, incluindo a Bethesda).

E pra mim isso pode ser visto na própria história principal do jogo. A primeira vez que eu joguei Fallout: New Vegas, eu passei horas mergulhando naquele universo, descobrindo tudo que eu podia sobre cada uma das facções.

O time do Fallout London conseguiu criar um universo com o mesmo nível de profundidade que o de New Vegas. Eu já joguei o jogo, e posso dizer que é incrível o quão rápido você descobre todas as complexidades da Londres pós-apocalíptica.

Tive a chance de escrever uma missão importante para uma das facções, e quando eu descobri que eu estava escrevendo um dos momentos mais emocionantes da história, foi como um presente de aniversário. Mal posso esperar para ver a reação dos jogadores.

Dicas para quem quer escrever para games

Se você está interessado em escrever para games, a primeira coisa que você tem que fazer é escrever. Bote as suas ideias no papel e comece a escrever roteiros. Porque é só assim que você vai aprender como construir uma boa história.

E apesar dos games terem aquele quesito da interatividade que os filmes e as séries não têm, eles também precisam de uma história bem construída. Todo tipo de história começa com um personagem que quer alguma coisa mas encontra um obstáculo.

E se você não aprender como desenvolver essas ideias básicas, você vai acabar batendo de frente com uma história desinteressante que não vai capturar o interesse do seu jogador.

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