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Nostaugia

Onde eu estava no dia que Ayrton Senna morreu

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Ayrton Senna
Ayrton Senna nos tempos da Williams. (Imagem: Divulgação)
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O avião batendo na torre, o Baggio chutando por cima, golpes de picareta no muro, o tiro no poeta pop… Existem alguns dias importantes da história, bons e ruins, que a gente consegue se lembrar com uma riqueza absurda de detalhes onde estava e como reagiu diante do fato histórico. E quando o caso é o fatal acidente de Ayrton Senna, boa parte do Brasil tem esse registro na memória.

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    Eu não sou diferente, e para fins de homenagem, e embora não seja agradável, vou pilotar mais uma vez aquela lembrança de 1º de maio, dizendo onde estavam minha mente, pés e mãos, afinal, eu estava pilotando em alta velocidade também, ainda que em segurança. E aos que me derem o crédito da segunda marcha nessa história, aí vai:

    Era mais um domingo igual ao de muitas casas de classe média no Brasil. Dois quartos, sala, cozinha, área de serviço e banheiro. E claro, UMA televisão, onde quem chegava primeiro tinha alguma prioridade até que as patentes mais altas da casa resolvessem assistir algo diferente.

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    Ciente da minha condição de recruta, sempre acordava o mais cedo possível para ter aquela caixa a serviço da jogatina gamer. E naquele preguiçoso e nublado domingo paulistano, eu estava algumas horas a frente da chefia da casa, que dormia até mais tarde o sono de quem pilota o apartamento.

    Feita toda a dança do acasalamento entre os cabos do Master System e da TV (quem viveu, sabe), era hora de finalmente dizer: “Ufa, bora jogar.” Qual jogo? Bom, o que tinha de opção nos anos 90, UM jogo. E para a minha sorte era o comprado/emprestado/doado/presenteado (não lembro) Ayrton Senna’s Super Monaco GP II, já um pouco velho pro mundo, novo pra mim naquele 1994.

    SEGA Classics Brasil: Ayrton Senna's Super Monaco GP 2: Master ...
    A capa do game, que ostentava 4 megas de muita competência para a época. (Imagem: Reprodução/internet.)

    Já tinha jogado um pouco antes daquele dia, e estava, como todo bom gamer, indignado com a minha incompetência (momentânea) em algumas fases. Levantei disposto a ser o que o Ayrton esperava de mim naquele joystick quadradinho, sem ergonomia nenhuma, mas que caía como uma luva pra pilotar.

    Convertendo Controles de Master System e Mega Drive Para o MSX ...

    Também sabia que era dia de Fórmula 1 nessa mesma TV, com direito a pirraça brasileira desfilando pela casa da italiana da Ferrari. Contudo, confesso que entre assistir o Senna e “ser” o Senna, eu (e praticamente toda criança que tinha aquele jogo) preferia mesmo era a segunda opção.

    Haviam algumas pistas naquele jogo que me humilharam de todas as maneiras que uma criança gamer poderia ser humilhada por um jogo. Não tenho vontade de visitar o Canadá e a França por causa da pista deles, aliás.

    Entre a minha culpa, a culpa da equipe e a culpa pista (Ayrton era inocente, claro), fiquei obcecado por horas tentando superar cada uma daquelas corridas do GP mundial. E desde às 7h eu fui, sem café, sem pão, sem água. Só na base da Trakinas e do ódio (aquele ódio que gera um tipo de concentração única pra quem quer superar um desafio esportivo. Ayrtons Ayrtarão).

    BANDEIRA PRETA COM CÍRCULO LARANJA

    Sei lá por quantas horas eu joguei, perdi a noção do tempo. Mas lá estava eu na última corrida, a do título, que eu ia ganhar. SE não errasse nada. Mas se até o Ayrton foi traído pela sua máquina, quem era eu pra não ter problemas técnicos em um momento crucial da corrida?

    No sinal verde, assim que dei um toque no joystick, eu vi o que o direcional estava falhando pra esquerda – Anos mais tarde, esse defeito ia ser apelidado de drift – , e aquilo ia me lascar nas curvas lá da frente, mas tudo bem, qualquer coisa, eu jogaria de novo. Mentira, não ia não. A porta do quarto abriu, e era a alta patente levantando, pra me desencarnar do macacão do Senna assim que voltasse do banheiro.

    Eu tinha 32 dentes sujos de vantagem até que a bandeira preta me fosse mostrada. Lá vinha a primeira curva, a inércia se apresentou e eu comi grama, mas puxei o carro e segui pra próxima. Percebi que colocando o direcional na diagonal inferior esquerda dava uma movimentação leve para aquela direção. Dava pra virar, mas só eu me antecipasse MUITO aos movimentos da curva.

    Eu era oficialmente o Senna guiando uma corrida com as marchas quebradas, ou melhor, com o joystick quebrado. Entrei num estado de concentração quase auto-hipinótico, e curva a curva, fui calculando a margem de erro do meu ‘volante’.

    A porta do banheiro abriu junto com a reta final, e bom dia da minha mãe veio junto com a bandeira quadriculada. Era aquele momento em que você larga o controle e fica olhando o final. Poderia ter jogado ele no chão com força, mas coloquei suavemente ele de lado, e ouvi um chiado seguido dessa tela:

    Algo foi dito aqui, mas eu não entendi. (Imagem: Reprodução Youtube).

    Era o final, e eu tinha ganhado mesmo. Eu tava um nojo, mas me sentindo aliviado e com as definições de autoestima atualizadas com sucesso, já que era a primeira vez que eu zerava um jogo de corrida, ficando a frente do Aryton, logo EU era o Ayrton. Tudo isso foi coroado pela melhor organização de pixels possíveis para aquele primeiro de maio, e sobretudo para os videogames da época:

    Cena do final de Ayrton Senna’s Syper Monaco GP II. (Imagem: Reprodução Youtube).
    Cena do final de Ayrton Senna’s Super Monaco GP II. (Imagem: Reprodução Youtube)

    Thank You

    Minha mãe, que tinha ido pra cozinha, voltou com café e bronca, reclamando que eu tava preso naquilo enquanto o “mundo se acabava lá fora“. Eu não entendi. Aí ela falou que ouviu algo dos vizinhos sobre o Ayrton lá da janela da cozinha, “algo grave”, disse. Achei que ela tinha se confundido com outro acidente grave na F1, que ainda era notícia naquela semana.

    Eu desliguei o videogame e coloquei no noticiário. Parei de enrolar os cabos quando vi a cena do helicóptero voando, se intercalando com imagens da maldita curva Tamburello. Dali para frente, assisti tudo com o cartucho dele na mão, sem dizer uma só palavra. E para todo mundo, o resto daquele dia foi só lágrima derrapando rosto abaixo.

    Ayrton Senna Super Monaco GP II - Master System - Sebo dos Games ...
    Cartucho do Master System para o game do Ayrton Senna. (Imagem: reprodução internet)

    Alguns gamers tem a mania de ‘descontar no virtual’ uma injustiça cometida na vida real. Tipo quando seu time perde e você vai para o FIFA/PES escolher o mesmo duelo e tirar a limpo isso. Uma semana depois, eu fui jogar Ayrton Senna’s Super Monaco GP II de novo.

    Muito mais confiante, mas com uma responsabilidade diferente agora, dessa vez fluiu tudo mais fácil (e com um controle novo). E eu cheguei novamente na final com muito mais classe. Meu irmão estava na sala nos momentos finais desse tributo virtual, e eu me lembrei do “chiado” que mencionei acima. Pedi para ele, que tinha um inglês bem melhor que o meu, para me falar que som era aquele.

    Cena do game de Ayrton Senna para o Master System. (Imagem: Reprodução Youtube.)

    Logo depois da tela, ele ouviu o ‘chiado’ e me disse: “Congratulations“, é “parabéns” em inglês, não de aniversário, mas desses que se fala quando você conquista algo“.
    Desde então, eu gosto de lembrar que a primeira vez que ouvi a palavra parabéns em inglês foi da boca do Ayrton Senna, ainda que num som de qualidade modesta.

    O final do game. (Imagem: Reprodução Youtube.)

    Hoje eu dei um print nessa última tela do jogo, e li com outros olhos a frase “Thank You For Playing“, (Obrigado por jogar). Porque hoje, eu posso até me gabar que o amor pelos games me deu uma profissão, mas eu também me orgulho de não ter derrapado em nenhuma das lições que o Senna deixou pra muita gente.

    Aos que quiserem voltar no tempo conferindo como era esse game, engatem a sexta marcha no vídeo abaixo e boa viagem:

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