A Toxicidade na Indústria gamer

Coluna 'Game Designer Sincero' aborda o que nunca é demais discutir: A toxidade no mundo gamer

Mario e peach
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Introdução

Depois do escandalo sobre assédio sexual às funcionárias da Blizzard que teve como consequência a ação judicial contra a empresa e a demissão do presidente da empresa devido a todo esta confusão, novamente um tema mais do que batido volta a baila: a toxicidade do ambiente dos games.

Sexismo, misoginia, racismo, homofobia estão por demais presentes em nosso meio e ainda são responsáveis por deploráveis episódios de assédio tanto sexual como moral. Parece que todos estes anos de campanha frente a comunidade, não adiantou muito.

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Esse assunto aparece ainda com muita força e um estudo publicado em 2019 (sic!) pela ONG Anti-Defamation League, já mostrava que 53% de jogadores online tinham sofrido algum tipo de constrangimento, assédio, etc. Na indústria de games o preconceito contra as mulheres chega a raias do absurdo.

Por conta disso, este nosso artigo vai falar como começar a virar a chave nesta história (tá mais do que na hora) e ainda falar um pouco mais sobre este assunto. Parafraseando mestre Galileu da Galileia: vamos entrar de cabeça nisso.

O Preconceito na Indústria dos Jogos

O famoso “Clube do Bolinha” faz parte ainda de uma cultura muito machista nas empresas de jogos. Existem inúmeros casos muito emblemáticos e que mostram a realidade nua e crua deste processo social.

Um caso famoso é o da dev que enviou seu curriculum para uma vaga e que foi prontamente recusado. Esta mesma dev enviou a do seu namorado e ele foi prontamente chamado para uma entrevista para esta mesma vaga. Aí vamos vendo que o preconceito é muito enraizado.

Negar que este preconceito existe, é falho. Uma pesquisa de 2019 da IGDA no mercado americano aponta que apenas que 24% dos desenvolvedores de jogo se identificam como mulheres, 7% como Hispânicos ou Latinos e apenas 2% como pretos. Ou seja a maioria é branca e masculina.

Isto já mostra que há algo muito errado…

Temos ainda um grande problema a ser tratado com relação ao preconceito no e-sports. No mesmo estudo da Anti-Defamation League, é apontado que 38% das mulheres e 35% dos jogadores LGBTQ+ declararam sofrer assédio frequente devido ao gênero e orientação sexual.

Em jogos online não profissionais, onde a presença massiva ainda é masculina, podemos ler coisas totalmente inacreditáveis como:

“Perder para menina? Tá doido. Lugar de menina é na cozinha”

Mulher é inferior mesmo!“,

Vai perder para o veado?

Tinha que ser macaco preto!

Pessoal, o que é isso? Que sandice é essa? O que passa na cabeça destes caras? Isso ofende as pessoas, mostra um nível de ignorância astronômica. Eu não entendo como este tipo de comportamento ainda pode acontecer! Para alguns imbecis são simples palavras.

Só queria que isso acontecesse coma filha/o, irmã/ão, namorada/o da pessoa que faz esse tipo de coisa…

Isso é ofensa, é preconceito é a pura demonstração da intolerância. Se você ainda acha que isto tudo é um exagero, digite no Google : “machismo na indústria de games”, “preconceito no e-sports”, “preconceito no mundo gamer” e tire suas próprias conclusões.

E olha que eu nem falei do sexismo das personagens de videogame! Assunto que ao longo dos anos está sendo tratado e tema de diversas mudanças nos jogos. Este papo ainda tem muito que ser discutido.

Isso mostra que o cenário é muito nocivo e ainda bem tóxico dentro do “mundo gamer”. Estes fatos só escancaram uma coisa que fica cada vez mais clara: insegurança masculina contra a presença da diversidade num ambiente que antes era dominado somente pelos homens.

O que fazer ?

O primeiro passo é entender o que são estes comportamentos e como eles influenciam muito as pessoas no seu dia a dia. É preciso que a educação aliada a um programa de esclarecimento seja levado a estes meios. Parece ser surreal em pleno século XXI, que ainda tenhamos este tipo de coisa nas empresas e nos meios dos jogos.

Pô Tony, mas as mulheres tiveram pouca atuação no início da indústria dos videogames e sempre foi falado que videogame foi considerado coisa de menino. Aí gerou tudo isso aí…

Amiguinho, você já ouviu falar de Carol Shaw? Sabe o que esta mulher fez em 1982? Apenas um jogo chamado River Raid para o Atari. Pois é né… O papo já começou torto há muito tempo…

E a propósito vocês conhecem a senhora Doris Self?

Doris Self Picture gaming
A campeã mais antiga do mundo

Ela mantém até hoje (mesmo depois de falecida em 2006) o recorde de “a campeã mais antiga de videogame”, marcando inacreditáveis 1.112.300 pontos no jogo de arcade Q * bert aos 58 anos em 1984. Pois é, acho que você não sabia dessa também, não é?

O principal ponto na minha humilde opinião é toda essa questão passa pela EDUCAÇÃO e pelo ESCLARECIMENTO, principalmente com todas as iniciativas no mundo dos games. Está mais no que da hora de não só discutirmos e sim agirmos, tomarmos atitudes reais e concretas.

É preciso que as empresas de jogos, as comunidades de jogos, as ligas de e-sports comecem a dizer um real NÃO a tudo isso. Trocar seis por meia dúzia, não vai resolver nada, simplesmente “xingarmos muito no Twitter”, não vai trazer soluções.

E tem que PUNIR, sim!

Os casos não podem ser esquecidos. É a empresa ser processada, é banir pessoas tóxicas com este tipo de postura, é fazer perder patrocínio, é expor a situação para que a mesma não se repita. Infelizmente estes casos só mostram um lado nada belo de nossa indústria.

Fica aqui esta minha reflexão para todos vocês.

Tony Garcia é Game Designer, Educador, Gamification Designer, Especialista em Manufatura Aditiva e em Tecnologias Educacionais.
Tem mais de 80 jogos desenvolvidos e trabalhou com mentoria em mais de 30 startups de jogos. Atuou em projetos de jogos educacionais e gamificação
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